quarta-feira, junho 04, 2008
segunda-feira, junho 02, 2008
domingo, junho 01, 2008
Bifurcação na Justiça
Entende-se por bifurcação a situação de um sistema instável em que uma alteração mínima pode causar efeitos imprevisíveis e de grande porte. Penso que o sistema judicial brasileiro vive neste momento uma situação de bifurcação. O Brasil é um dos países latino-americanos com mais forte tradição de judicialização da política. Há judicialização da política sempre que os conflitos jurídicos, mesmo que titulados por indivíduos, são emergências recorrentes de conflitos sociais subjacentes que o sistema político em sentido estrito (Congresso e Governo) não quer ou não pode resolver. Os tribunais são, assim, chamados a decidir questões que têm um impacto significativo na recomposição política de interesses conflituantes em jogo. Neste momento, o país atravessa um período alto de judicialização da política. Entre outras acções, tramitam no STF a demarcação do território indígena da Raposa Serra do Sol, a regularização dos territórios quilombolas e as acções afirmativas vulgarmente chamadas quotas. Muito diferentes entre si, estes casos têm em comum serem emanações da mesma contradição social que atravessa o país desde o tempo colonial: uma sociedade cuja prosperidade foi construída na base da usurpação violenta dos territórios originários dos povos indígenas e com recurso à sobre-exploraçã o dos escravos que para aqui foram trazidos. Por esta razão, no Brasil, a injustiça social tem um forte componente de injustiça histórica e, em última instância, de racismo anti-índio e anti-negro. De tal forma, que resulta ineficaz e mesmo hipócrita qualquer declaração ou política de justiça social que não inclua a justiça histórica. E, ao contrário do que se pode pensar, a justiça histórica tem menos a ver com o passado do que com o futuro. Estão em causa novas concepções do país, de soberania e de desenvolvimento. Desde há vinte anos, sopra no continente um vento favorável à justiça histórica. Desde a Nicarágua, em meados dos anos oitenta do século passado, até à discussão, em curso, da nova Constituição do Equador, têm vindo a consolidar-se as seguintes ideias. Primeira, a unidade do país reforça-se quando se reconhece a diversidade das culturas dos povos e nações que o constituem. Segunda, os povos indígenas nunca foram separatistas. Pelo contrário, nas guerras fronteiriças do século XIX deram provas de um patriotismo que a história oficial nunca quis reconhecer. Hoje, quem ameaça a integridade nacional não são os povos indígenas; são as empresas transnacionais, com a sua sede insaciável de livre acesso aos recurso naturais, e as oligarquias, quando perdem o controlo do governo central, como bem ilustra o caso de Santa Cruz de la Sierra na Bolívia. Terceira, dado o peso de um passado injusto, não é possível, pelos menos por algum tempo, reconhecer a igualdade das diferenças (interculturalidade ) sem reconhecer a diferença das igualdades (reconhecimentos territoriais e acções afirmativas) . Quarta, não é por coincidência que 75% da biodiversidade do planeta se encontra em territórios indígenas ou de afro-descendentes. Pelo, contrário, a relação destes povos com a natureza permitiu criar formas de sustentabilidade que hoje se afiguram decisivas para a sobrevivência do planeta. É por essa razão que a preservação dessas formas de manejo do território transcende hoje o interesse desses povos. Interessa ao país no seu conjunto e ao mundo. E pela mesma razão, o reconhecimento dos territórios tem ser feito em sistema contínuo, pois doutro modo desaparecem as reservas e, com elas, a identidade cultural dos indigenas e a própria biodiversidade. Estes são os ventos da história e da justiça social no actual momento do continente. Ao longo do século XX não foi incomum que instâncias superiores do sistema judicial actuassem contra os ventos da história, e quase sempre os resultados foram trágicos. Nos anos trinta, o ST dos EUA procurou bloquear as políticas do New Deal do Presidente Roosevelt, o que impediu a recuperação econónimca e social que só a segunda guerra mundial permitiu. No início dos anos setenta, o ST do Chile boicotou sistematicamente as políticas do Presidente Allende que visavam a justiça social, a reforma agrária, a soberania sobre os recursos naturais, fortalecendo assim as forças e os interesses que ganharam com o seu assassinato. Em momento de bifurcação histórica, as decisões do STF nunca serão formais, mesmo que assim se apresentem. Condicionarão decisivamente o futuro do país. Para o bem ou para o mal.
Boaventura de Sousa Santos *
(Diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra)
____________
* Texto gentilmente cedido pelo autor como contribuição especial ao Seminário "Povos Indígenas, Estado e Soberania Nacional", promovido pelo "Observatório da Constituição e da Democracia" - C&D, do Grupo de Pesquisa Sociedade, Tempo e Direito - STD, da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília - UnB, e Fórum em Defesa dos Direitos Indígenas - FDDI, evento realizado em 28 de maio de 2008, no auditório "Dois Candangos", da Faculdade de Educação da UnB.
Faculdade de Economia - Universidade de Coimbra
Boaventura de Sousa Santos *
(Diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra)
____________
* Texto gentilmente cedido pelo autor como contribuição especial ao Seminário "Povos Indígenas, Estado e Soberania Nacional", promovido pelo "Observatório da Constituição e da Democracia" - C&D, do Grupo de Pesquisa Sociedade, Tempo e Direito - STD, da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília - UnB, e Fórum em Defesa dos Direitos Indígenas - FDDI, evento realizado em 28 de maio de 2008, no auditório "Dois Candangos", da Faculdade de Educação da UnB.
Faculdade de Economia - Universidade de Coimbra
sexta-feira, maio 30, 2008
domingo, maio 25, 2008
O que eu quero lhe dar
São lavores,
meu amor,
são bordados
de muita delicadeza.
O tempo
será meu buril.
No dia incerto,
quando eu abrir
as mãos,
terei parido pérolas
pelas palmas
e pelo ventre.
Eu, irmã das nuvens,
das conchas, dos peixes
e serpentes,
depositarei pérolas
em sua boca.
Pelo seu peito,
meu bem,
carinho e pérolas
que lhe comovam.
Martha
São lavores,
meu amor,
são bordados
de muita delicadeza.
O tempo
será meu buril.
No dia incerto,
quando eu abrir
as mãos,
terei parido pérolas
pelas palmas
e pelo ventre.
Eu, irmã das nuvens,
das conchas, dos peixes
e serpentes,
depositarei pérolas
em sua boca.
Pelo seu peito,
meu bem,
carinho e pérolas
que lhe comovam.
Martha
quarta-feira, maio 14, 2008
quinta-feira, maio 01, 2008
O trabalhador é tanto mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais cresce sua produção em potência e em volume. O trabalhador converte-se numa mercadoria tanto mais barata quanto mais mercadorias produz. A desvalorização do mundo humano cresce na razão direta da valorização do mundo das coisas. O trabalho não apenas produz mercadorias, produz também a si mesmo e ao operário como mercadoria, e justamente na proporção em que produz mercadorias em geral.Karl Marx
quinta-feira, abril 10, 2008
segunda-feira, março 31, 2008
O olhar do fotógrafo
É no final do dia e no amanhecer que o olhar do fotógrafo se torna mais aguçado. Essas horas do dia são as melhores para fotografar. A luz está mais fraca e tudo, objetos, paisagens ou pessoas, ficam mais coloridos. Pela manhã são as cores ditas mais frias e pela tarde mais quentes. Refletir sobre olhar do fotógrafo, exige que se defina que espécie de fotógrafo possui determinado tipo de olhar. Isto porque o termo fotógrafo é bastante genérico e engloba variados tipos de fotógrafos, como todos sabemos. Uma importante dicotomia separa os fotógrafos em profissionais e amadores. Sendo essa divisão, em minha maneira de ver, mais de ordem econômica, não vejo diferença substancial entre o olhar de um fotógrafo profissional e um amador. Defino como profissional o fotógrafo que se dispõe a fazer fotos para aqueles que lhe pagam para isso. Um profissional vive do ofício de fotografar. O amador, ao contrário, faz fotos sem receber remuneração por elas. Sob certo ponto de vista o fotógrafo amador é um privilegiado, porque faz o que faz por amor, sem precisar vender seu prazer de fotografar. Eu pessoalmente já tive muita inveja de alguns excelentes fotógrafos amadores. Poder fotografar livremente sem ter que atender a demandas de clientes é uma coisa que não tem preço. É claro que muitas vezes dá para conciliar as duas coisas. O olhar do fotografo que me interessa falar é o do fotógrafo escritor. Aquele que expressa através de suas fotografias sua maneira de ver o mundo, seus questionamentos sobre a vida e faz de suas fotos poesias imagéticas, ou ainda, arisca um pouco de filosofia ou política.A visão sempre foi para o homem seu sentido mais aguçado. Sua porta mais aberta para perceber o mundo em sua volta. A visão é a janela da alma humana. O fotógrafo possui sem dúvida uma forma singular de recortar o mundo. Assim como os poetas e os escritores o fotógrafo necessita falar sobre a vida e o faz através da escrita fotográfica. Como os escritores, os fotógrafos escolhem, criam, adotam estilos e/ou temas diferentes. O olhar de alguns fotógrafos busca detalhes não percebido pelos outros e ao registrar, com sua câmera esses detalhes, fazem suas rimas, tecem seus discursos. Cartier-Bresson, o mais lendário dos fotógrafos escritores, tinha uma sintaxe muito pessoal. Sempre fotografava com a mesma câmera e lente, e não escolhia detalhes. Ele gostava de capturar momentos decisivos dentro de uma composição impecável.
Que fique bem claro que a visão é apenas um dos sentidos envolvidos no ato de fotografar. Por exemplo, há algo além que se costuma chamar de feeling, um sentimento interior fundamental na hora de enquadrar e fazer o click. É desse feeling que se utiliza Evgen Bavcar, um fotógrafo esloveno cego desde os 12 anos de idade. Vale conferir suas fotos na internet, em seu site, http://www.zonezero.com/EXPOSICIONES/fotografos/bavcar/
Quando comparo um fotógrafo a um escritor quero também dizer que a escrita fotográfica também pode, e deve, ser utilizada por todos que desejarem. Assim como a linguagem falada, a linguagem fotográfica é um excelente instrumento de comunicação. Outro dia escutei uma conversa entre dois colegas de trabalho que contavam um para o outro sobre suas viagens de férias. A conversa terminou com a promessa de no dia seguinte mostrarem as fotos de suas viagens. E isso realmente aconteceu. A conversa então teve dois momentos claramente distintos. No primeiro houve o uso da linguagem escrita e no segundo a linguagem fotográfica. As duas linguagens se completaram melhorando a qualidade da comunicação. Sem entrar em muitos detalhes sobre a qualidade das fotos dos dois viajantes, digo que vi em muitas fotos o olhar de fotógrafo. Havia uma preocupação além da estética. As cenas estavam bem enquadradas proporcionando boa leitura da imagem, o que me leva a pensar se todos nós, cidadãos contemporâneos, não temos olhar de fotógrafo. Só não possuindo prática necessária com as regras da linguagem fotográfica, incluindo aí a habilidade com o manuseio do equipamento fotográfico.
Afinal de fotógrafo e louco todos temos um pouco.
domingo, março 30, 2008
28.03.2008
quinta-feira, março 20, 2008
segunda-feira, março 10, 2008

Panorâmica
Eu vou me atirar
Do alto do Elevador Lacerda.
(já posso até sentir o vento
entrando pelas narinas
me obrigando a fechar os olhos)
Quando estiver bem perto do chão
- frio na barriga! -
Abrirei minhas asas enormes
Vôo rasante sobre a Baía de Todos os Santos
Até molho as pontas dos dedos na água.
Ana Fernanda
domingo, março 02, 2008
Março, mês internacional das mulheres.
domingo, fevereiro 24, 2008
sábado, fevereiro 02, 2008
terça-feira, janeiro 15, 2008
Ex-Voto

Ex-Voto
Na tarde clara de um domingo quente
surpreendi-me,
intestinos urgentes, ânsia de vômito, choro,
desejo de raspar a cabeça e me pôr nu
ano centro de minha vida e uivar
até me secarem os ossos:
que queres que eu faça, Deus?
Quando parei de chorar
o homem que me aguardava disse-me:
"você é muito sensível, por isso tem falta de ar".
Chorei de novo porque era verdade
e era também mentira,
sendo só meio consolo.
Respira fundo, insistiu, joga água fria no rosto,
vamos dar uma volta, é psicológico.
Que ex-voto levo à Aparecida,
se não tenho doença e só lhe peço a cura?
Minha amiga devota se tornou budista,
torço para que se desiluda
e volte a rezar comigo as orações católicas.
Eu nunca ia ser budista,
por medo de não sofrer, por medo de ficar zen.
Existe santo alegre ou são os biógrafos
que os põem assim felizes como bobos?
Minas tem coisas terríveis,
a Serra da Piedade me transtorna.
Em meio a tanta rocha
de tão imediata beleza,
edificações geridas pelo inferno,
pelo descriador do mundo.
O menino não consegue mais,
vai morrer, sem força para sugar
a corda de carne preta do que seria um seio,
agora às moscas.Meu coração é bom
mas não aceita que o seja.
O homem me presenteia,
por que tanto recebo,
quando seria justo mandarem-me à solitária?
Palavras não, eu disse, só aceito chorar.
Por que então limpei os olhos
quando avistei roseiras
e mais o que não queria,
de jeito nenhum àquela hora,
o poema,
meu ex-voto,
não a forma do que é doente,
mas do que é são em mim
e rejeito e rejeito,
premida pela mesma força
do que trabalha contra a beleza das rochas?
Me imploram amor Deus e o mundo,
sou pois mais rica que os dois,
só eu posso dizer à pedra:
és bela até à aflição;
o mesmo que dizer a Ele:
sois belo, belo, sois belo!
Quase entendo a razão de minha falta de ar.
Quase entendo a razão de minha falta de ar.
Ao escolher palavras com que narrar minha
angústia,
eu já respiro melhor.
A uns Deus os quer doentes,
a outros quer escrevendo.
Adélia Prado
sexta-feira, janeiro 11, 2008
segunda-feira, janeiro 07, 2008
quarta-feira, janeiro 02, 2008
segunda-feira, dezembro 24, 2007
terça-feira, dezembro 18, 2007
Réquiem

se pudesse voltaria o tempo e evitaria a tragédia.
Morreram 7 humanos e a magia da Fonte Nova,
patrimônio da Bahia.
sábado, dezembro 15, 2007
quinta-feira, dezembro 13, 2007
terça-feira, dezembro 11, 2007
segunda-feira, dezembro 10, 2007
sábado, dezembro 08, 2007
sexta-feira, dezembro 07, 2007

"Eu acho que o extraordinário neste fim de século
é essa produção a partir de baixo, de
algo que é revolucionário no sentido que os
pobres acabam por ver mais o que o mundo
está sendo do que nós, porque estamos con-
tentes com o conforto do nosso bairro, do
consumo e das idéias estabelecidas. Tudo isso
é um entrave à produção do conhecimento. O
futuro está lá embaixo.”
Milton Santos
Milton Santos
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