É no final do dia e no amanhecer que o olhar do fotógrafo se torna mais aguçado. Essas horas do dia são as melhores para fotografar. A luz está mais fraca e tudo, objetos, paisagens ou pessoas, ficam mais coloridos. Pela manhã são as cores ditas mais frias e pela tarde mais quentes. Refletir sobre olhar do fotógrafo, exige que se defina que espécie de fotógrafo possui determinado tipo de olhar. Isto porque o termo fotógrafo é bastante genérico e engloba variados tipos de fotógrafos, como todos sabemos. Uma importante dicotomia separa os fotógrafos em profissionais e amadores. Sendo essa divisão, em minha maneira de ver, mais de ordem econômica, não vejo diferença substancial entre o olhar de um fotógrafo profissional e um amador. Defino como profissional o fotógrafo que se dispõe a fazer fotos para aqueles que lhe pagam para isso. Um profissional vive do ofício de fotografar. O amador, ao contrário, faz fotos sem receber remuneração por elas. Sob certo ponto de vista o fotógrafo amador é um privilegiado, porque faz o que faz por amor, sem precisar vender seu prazer de fotografar. Eu pessoalmente já tive muita inveja de alguns excelentes fotógrafos amadores. Poder fotografar livremente sem ter que atender a demandas de clientes é uma coisa que não tem preço. É claro que muitas vezes dá para conciliar as duas coisas. O olhar do fotografo que me interessa falar é o do fotógrafo escritor. Aquele que expressa através de suas fotografias sua maneira de ver o mundo, seus questionamentos sobre a vida e faz de suas fotos poesias imagéticas, ou ainda, arisca um pouco de filosofia ou política.A visão sempre foi para o homem seu sentido mais aguçado. Sua porta mais aberta para perceber o mundo em sua volta. A visão é a janela da alma humana. O fotógrafo possui sem dúvida uma forma singular de recortar o mundo. Assim como os poetas e os escritores o fotógrafo necessita falar sobre a vida e o faz através da escrita fotográfica. Como os escritores, os fotógrafos escolhem, criam, adotam estilos e/ou temas diferentes. O olhar de alguns fotógrafos busca detalhes não percebido pelos outros e ao registrar, com sua câmera esses detalhes, fazem suas rimas, tecem seus discursos. Cartier-Bresson, o mais lendário dos fotógrafos escritores, tinha uma sintaxe muito pessoal. Sempre fotografava com a mesma câmera e lente, e não escolhia detalhes. Ele gostava de capturar momentos decisivos dentro de uma composição impecável.
Que fique bem claro que a visão é apenas um dos sentidos envolvidos no ato de fotografar. Por exemplo, há algo além que se costuma chamar de feeling, um sentimento interior fundamental na hora de enquadrar e fazer o click. É desse feeling que se utiliza Evgen Bavcar, um fotógrafo esloveno cego desde os 12 anos de idade. Vale conferir suas fotos na internet, em seu site, http://www.zonezero.com/EXPOSICIONES/fotografos/bavcar/
Quando comparo um fotógrafo a um escritor quero também dizer que a escrita fotográfica também pode, e deve, ser utilizada por todos que desejarem. Assim como a linguagem falada, a linguagem fotográfica é um excelente instrumento de comunicação. Outro dia escutei uma conversa entre dois colegas de trabalho que contavam um para o outro sobre suas viagens de férias. A conversa terminou com a promessa de no dia seguinte mostrarem as fotos de suas viagens. E isso realmente aconteceu. A conversa então teve dois momentos claramente distintos. No primeiro houve o uso da linguagem escrita e no segundo a linguagem fotográfica. As duas linguagens se completaram melhorando a qualidade da comunicação. Sem entrar em muitos detalhes sobre a qualidade das fotos dos dois viajantes, digo que vi em muitas fotos o olhar de fotógrafo. Havia uma preocupação além da estética. As cenas estavam bem enquadradas proporcionando boa leitura da imagem, o que me leva a pensar se todos nós, cidadãos contemporâneos, não temos olhar de fotógrafo. Só não possuindo prática necessária com as regras da linguagem fotográfica, incluindo aí a habilidade com o manuseio do equipamento fotográfico.
Afinal de fotógrafo e louco todos temos um pouco.

