A imagem de policiais portando fuzis na comitiva do governador em visita de trabalho a uma comunidade do subúrbio não é o símbolo da insegurança em que estamos vivendo. Ela representa, antes, a distância que existe entre o cidadão da comunidade para com os seus políticos.
Esses senhores, os políticos, nascem numa dada comunidade, vivem nela e dela por um período de suas vidas. Um dia são guindados ao posto de representantes dessa comunidade; seja como vereador, deputado, prefeito, governador, ou senador, e isso transforma suas vidas, começando pela comunidade a qual passam a pertencer. O sistema democrático brasileiro, diz que todo poder emana do povo, porém apresenta ainda incongruências que podem ser simbolizadas pelo fuzil do PM protegendo o governador e sua comitiva.
Onde há fumaça deve haver fogo, e o fuzil naquele momento era a fumaça. A presença do fuzil protegendo o governador e sua comitiva, numa manhã ensolarada de domingo, evento festivo, com direito a hino nacional, fanfarra, dança e entrega de títulos, soou normal para a comunidade de Novos Alagados acostumada a conseguir suas reivindicações através de lutas. Estive outras vezes nessa comunidade e sei o quanto é admirável, respeitável e pacífico o trabalho da Sociedade 1º de Maio, comandada por Vera Lazarotto.
Pense em você andando por uma rua de seu bairro, na qual se sente seguro, e de repente surge um homem portando uma arma na mão, não precisa ser grande como um fuzil. Imagino que nesse momento sua tranqüilidade escorra pelo ralo com a lembrança, de algum episódio traumático vivido, ou dos e-mails e notícias, que os amigos mandam pela internet, avisando de novos golpes ou modalidades de assaltos. Tudo isso pode lhe passar na cabeça.
Naquela situação, o que a imagem do fuzil configurou, foi a distância que existe entre os políticos e as comunidades. Os soldados armados estavam ali para garantir que ninguém não autorizado chegaria perto demais das autoridades presentes antes delas terminarem seus discursos do alto do palanque. As pessoas da comunidade, que em verdade não prestavam muita atenção nos discursos, permaneceram comportadamente no seu lugar até que no final alguns puderam se aproximar do governador e lhe entregar cartas com pedidos e justas reivindicações. Tudo ordeiramente. E o fogo do fuzil do soldado pôde continuar sendo apenas fumaça, sem fogo.
Os projetos de reforma no sistema político brasileiro que propõem, entre outras coisas, financiamento público para as campanhas, visando resolver os problemas de abuso econômico, de certo, não abordam esse delicado e insistente problema da distância entre os políticos e as comunidades.
Os aspirantes e políticos no atual e no vindouro sistema, pós reforma, continuarão a trocar de comunidade logo depois de eleitos, passaram a integrar a comunidade dos políticos. Mudar de bairro e pensar na reeleição, garantia de emprego bem remunerado e auto-reajustável. Jetons e mordomias.
Como mudar esse quadro? Fácil essa resposta, difícil é achar um político que queira saber. As minhas idéias escrevi e guardei dentro de um envelope para entregar a uma comitiva que aparecer aqui no meu bairro.